Nasci em França na Maternidade da SUD AVIATION. Foi um parto dificil, após vários anos de gestação. Deram-me o nome pomposo de ALLOUETTE III. Nasci robusto e saudável. Nessa Maternidade nasceram outros meus irmãos, e como éramos muitos distribuíram-nos por diversas famílias Europeias.

Eu e outros irmãos, viemos parar a uma família Portuguesa de seu nome Força Aérea e fomos muito bem recebidos no nosso novo lar. Ajudaram-nos nos nossos primeiros " passos " uma rapaziada a quem davam o nome de pilotos e assim fomos adquirindo mais afoiteza no céu azul e sol esplendoroso de Portugal.

Levaram-nos para as lezírias do Ribatejo, puxaram por nós nas planícies alentejanas, elevaram-nos nas alturas da Serra da Estrela. Vimos coisas boas estendidas nas douradas areias das nossas praias. Cortaram-nos a respiração nas descidas bruscas e rápidas das auto-rotações. Tudo isto dava gozo.

Já me estava a esquecer de vos dizer que dormíamos no “Solar de Tancos”.

Eis que então surge alguém de ideias luminosas com vontade de nos mudar para outras paragens, que se estava a passar ?..... Para onde vamos ?......

Sem se justificarem, encaixotaram-nos, meteram-nos dentro de um outro nosso familiar.

Após longas horas de amargura e falta de ar, dei por descer numa terra completamente diferente. O calor sufocava-nos. A respiração era difícil !!!

Até as pessoas eram diferentes. A sua cor de pele estranha. Ouvimos dizer que era África, Moçambique.

Que estávamos afinal ali a fazer ?...... A resposta foi dura e seca.

Vão para a guerra !!??....

Mandaram-nos para Nampula.

Deram-nos uma roupagem nova e a confusão entre nós era cada vez maior.

Guerra ?

Mas que guerra ?

Que fizemos nós para nos empurrarem para uma situação bélica ?

Facilmente, entretanto, percebemos o porquê do nosso chamamento.

Lançaram-nos para os “Lares de Mueda, Vila Cabral e Tete”.

Era a ajuda, a palavra amiga que levávamos a quem de nós precisava.

Fomos obrigados a apertar os nossos corpos em buracos na selva, onde mal cabia um rotor. Sustivemos a respiração em situações delicadas de tiroteio. O meu corpo foi várias vezes dilacerado, fazendo-me chorar lágrimas de horror e raiva ao mesmo tempo.

Chamaram-nos de “Moscas”, “Índios” e outras coisas mais. No entanto tínhamos uma coisa em comum, ajudar onde quer que fosse e em condições para as quais não tínhamos sido preparados, mas resistíamos.

O cansaço por vezes era enorme. Valia-nos uma plêiade de pessoas que tratavam de nós com carinho, zelo e grande profissionalismo, de seu nome, MECÂNICOS. Os dedos que faziam funcionar as nossas pás, e nos manobravam com delicados trejeitos de bailarinos, davam pelo nome de PILOTOS.

Terminada aquela estúpida aventura, alguns dos meus irmãos ficaram naquelas paragens. Eu, regressei à minha casa mãe, onde continuo.

Sinto-me cansado e agastado e tenho recorrido algumas vezes aos serviços hospitalares das OGMA.

Resta-me a mim e aos restantes familiares, aguardar que a morte nos atire para um amontoado de ferros retorcidos, numa passagem efémera neste Mundo demasiado conturbado.

Alegres no entanto por termos cumprido a nossa missão enquanto vivos !

Até um dia Allouette III

Autor:  José Raimundo
Publicado em: “O Bate-Estradas” n.º 18 Abril/Maio 2004
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