
Finais de 1969, destacamento em Gago Coutinho ( A.M. 44 )
Nos finais do ano de 1969 ( Outubro ou Novembro ), a equipa dos " Saltimbancos " destacada em Gago Coutinho, era mais uma vez, constituída pelo Alf. PILAV Carlos Vidal e pelo 1.º cabo MMA Carlos Jeremias.
No regresso de uma missão de reabastecimento, cerca das 16,00 horas, ao destacamento dos páras em Ninda. Já próximo de Gago Coutinho deparamos com uma fabulosa manada de palancas, e o Alf. Vidal não é de modas:
- Jeremias, vamos arranjar um petisco para o jantar ???
E o vosso amigo não se fez rogado.
- Vamos a isso.
Porta traseira do heli aberta, G3 preparada e a caçada começou, num instante conseguimos matar 3 palancas, mas o pior estava para vir.
Terminada a " função ", aterrámos para meter os bichos dentro do heli, mas qual quê, os animais eram tão grandes, que apesar dos nossos esforços foi de todo impossível conseguir carregá-los, contudo como ainda era bastante dia o Alf. Vidal não se atrapalhou.
- Jeremias, vamos num instante lá ao batalhão, falamos com o oficial de dia, ele arranja uma equipa com uma " Berliet " e vimos cá buscar os bichos, aqui é que eles não ficam.
E, meu dito meu feito, helicóptero no ar rumo ao aquartelamento. Assim que relatámos a nossa proeza, logo ali se arranjou uma equipa de voluntários ( cerca de 20 pessoas ), para ir à mata buscar os bichos, duas " Berliets ", dois " Unimogs ", um rádio, para o que desse e viesse, e lá fomos nós, Alf. Vidal e o Jeremias incluídos no grupo, para dizer onde estavam os bichos.
Mas, o pior estava para vir, quando chegámos ao local, não conseguimos localizar os bichos e a noite começava a cair. Do ar a perspectiva é totalmente diferente do que no solo e, embora nós tivessemos identificado algumas árvores e clareiras onde os animais estavam, quando chegámos ao terreno, as árvores eram todas iguais, as clareiras também, dos bichos nem vê-los, e a noite a ficar cerrada.
Resolvemos então regressar ao aquartelamento mesmo sem os bichos, mas, para complicar mais a situação, os próprios condutores já não sabiam onde estavam, nem conseguiam encontrar o caminho de volta, pois nós tinhamos saído da picada para entrar na chana e, caminho nem vê-lo, com a escuridão da noite era tudo igual, mato e mais mato.
Há que pedir ajuda para o aquartelamento, mas para mal dos nossos pecados, até o rádio que levámos tinha as baterias fracas, não se tendo conseguido estabelecer contacto com ninguém, e isto já era noite cerrada (20,00 h) e, nem a lua brilhava no céu.
Entretanto com tanta volta que demos para sair daquele local, lá acabámos por encontrar os bichos e carregá-los para as " Berliets ", contudo agora que já tinhamos o petisco, continuávamos sem conseguir sair dali, estávamos completamente perdidos, sem comunicações, o cacimbo da noite a apertar com o frio, agravado com os barulhos e ruídos característicos das noites africanas.
Já um pouco desesperados, eis que ao longe avistamos um clarão, que pareciam luzes de viaturas e, logo ali os condutores dos camiões e unimogs, começaram a movimentar as viaturas nessa direcção, pois diziam eles só podia ser pessoal do aquartelamento que vinha à nossa procura.
E, de facto, assim era, ao verificarem que com o passar das horas, nós não aparecíamos, nem tinhamos comunicado por rádio, o comandante do Batalhão mandou uma coluna de socorro à nossa procura, já que estavam a pensar no pior, pois o local onde nós estávamos ( viemos a saber mais tarde ) era uma zona onde existia um acampamento de guerrilheiros.
Chegámos ao aquartelamento cerca da meia-noite e, claro está que nessa noite ninguém dormiu, primeiro porque o susto foi grande, segundo porque ainda tivemos que esfolar e estripar as 3 palancas, para as colocar nos frigoríficos do batalhão.
O " cagaço " foi enorme, como podem imaginar, contudo a compensação foi boa, pois durante quinze dias comeu-se carne da melhor, de toda a maneira e feitio.
Carlos Jeremias
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