

Páscoa de 1970, destacamento em Gago Coutinho ( A.M. 44 )
A equipa dos " Saltimbancos " destacada era constituída pelo Alf. PILAV Carlos Vidal e pelo 1.º cabo MMA Carlos Jeremias, além do pessoal habitual proveniente do A.B. 4 ( Henrique Carvalho ), normalmente 7 elementos ( 2 pilotos, 1 mec. material aéreo, 1 mec. electricista, 1 mec. de rádio, 1 mec. de armamento e 1 rádio telegrafista ).
No sábado, véspera do domingo de Páscoa, cerca das 17 horas, foi solicitado o transporte de um militar doente para o hospital do Luso, missão a ser efectuada pela aeronave " DO - 27 " , habitualmente estacionada em Gago Coutinho, juntamente com um T- 6.
O piloto destacado para esta missão foi o Fur. PILAV Abecassis.
Face ao adiantado da hora, a missão só deveria ter lugar ao amanhecer de domingo, pois o tempo em vôo não permitiria efectuar a aterragem no Luso com luz do dia e, não tendo a pista iluminação própria, teria de se recorrer ao uso de candeeiros, o que seria problemático.
Mas o nosso amigo Abecassis queria ir passar o domingo de Páscoa ao Luso, e apesar dos avisos efectuados, e de saber que em África a noite cai rapidamente, resolveu arriscar e descolou com o aparelho completo ( mecânico, que era o nosso colega Charrinho, doente em maca e enfermeiro ).
Claro está, o que se previa aconteceu, cerca da meia-noite foi dado o alerta geral, pois o aparelho não aparecia no destino, nem tinha havido qualquer comunicação rádio.
Accionado o plano de busca pelo comando da Região Aérea, saiu de imediato de Luanda um aparelho PV2, e foi dada indicação ao " heli " destacado em Gago Coutinho, para que descolasse logo que os primeiros raios de luz permitissem o vôo.
Claro que nessa noite ninguém dormiu e, logo que foi possível o " heli " estava no ar, seguindo a rota habitual para o Luso, com o Alf. Vidal e o Jeremias, de olhar " aguçado ", tentando descortinar alguma coisa no solo, ou no meio da mata.
De repente e, numa clareira, notou-se algum movimento com uns vultos a acenar. Deu-se a volta e, passámos então a " rapar " pelo meio da clareira, e o que vimos deixou-nos espantados.
O DO - 27, estava totalmente enfiado dentro da mata, e nós imaginámos logo o pior. Demos mais uma volta e só então aterrámos. De facto, era verdade, o aparelho estava metido dentro da mata....mas intacto, e nesse preciso momento estavam o Fur. Abecassis, o mecânico e o enfermeiro, a empurrar o aparelho para o meio da clareira, para o colocarem em posição de descolagem.
Lá os ajudámos a completar a operação e, através do rádio comunicámos que já tinhamos localizado o aparelho, e que este assim como os ocupantes estavam bem e, que iam encaminhar-se para o Luso, com o doente.
Foi então que o Alf. Vidal falou com o Abecassis, perguntando-lhe o que se tinha passado, e o diálogo foi o que segue:
- Ó pá, escureceu muito de repente e eu perdi-me, então descobri aqui este " buraco " e resolvi passar aqui a noite.
- Então porque é que não comunicaste a situação ?
- Não comuniquei porque tive medo que os " gajos " andassem aqui por perto e ouvissem a comunicação rádio, e que nos viessem apanhar....
E a conversa terminou aqui....
Por sorte que a clareira tinha comprimento suficiente para permitir a descolagem e não existindo muitos buracos, lá seguiram rumo ao Luso. Quanto a nós, voltámos para Gago Coutinho, ainda a tempo do almocinho...
E assim foi o nosso Domingo de Páscoa de 1970.
Carlos Jeremias
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